quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A FLOR DESPEDAÇADA


Existia uma flor no quintal da casa de Cecília muito especial, era conhecida como a flor de Cilicia. Assim como a patroa, era cheia de manias, exalava um cheiro doce, era alva por fora, mas, quando desabrochava era vermelha como escarlate. Por diversas vezes se confundia com a rosa vermelha, de tão bonita.

Aquela planta não era comum. Todos os dias recebia cuidados especiais. Certo dia, a pequena Ceci foi regá-la, mas, desistiu quando verificou que o excesso de zelo a estava matando, cortando suas oportunidades de crescer saudável como as suas amigas herbívoras. Nesse instante, a garota sentiu a dor da florzinha, porque sabia o que era ser superprotegida, pois, assim percebia quando os pais não a deixavam sair por medo do perigo.

Olhava para a amiguinha e via que cada vez que a plantinha se abria trazia uma cor alegre, a qual deixava o seu dia mais feliz e aproveitava para tirar a raiz com o objetivo de brincar com as pétalas, mas, pressentia a tristeza estampada no pé e que a cada flor tirada, a alegria diminuía.

Era o contraste de sentimentos mais perfeito que já sentiu, ao despedaçar a flor notava a morte da mesma e assim percebia que na verdade o seu ser também perdia a sensibilidade após tantas palavras mal ditas. Ela procurava a maneira de se curar na natureza, mas, revivia sem perceber cada dor sofrida.

Como em um ritual estranho, a menina decidia colar cada pedaço da flor morta com a cola maluca, mas, não adiantava. Era inútil, pois, no mesmo minuto tudo desmontava mais desajustado, com manchas em toda parte e divisível. Desistiu, mas, algo a fazia resistir aquele ímpeto de queimar aqueles pedaços que sobraram.

Resolveu grampear, em uma tentativa absurda de se redimir, tentava de diversas maneiras salvar aquela flor e quem sabe a si mesma, questão de honra se tornara, não podia falhar, indispensável por algum motivo a reconstrução.

Atormentara-se com a possibilidade de errar novamente, de o grampo faltar, da respiração não voltar. Notara que era impossível grampear várias pétalas, e, mesmo que conseguisse, jamais voltaria ao normal. Seria emendada, como se tivesse sido costurada. Preferia isso à consciência pesada.

Comportamento inexplicável daquela menina acostumada a regar e a vê-las morrer para depois renascer como as fênix, mas, com aquela herbívora era diferente, a associara à sua própria vida, somente isto explicaria tanto empenho em “ressuscitá-la”. Parecia que o seu desejo era reviver por meio daquela florzinha.

Ao conseguir juntar as pétalas sentia como se estivesse juntando os cacos da alma despedaçada pelos anos em profundo silêncio. Quando pensava no riso amargo da amiga traduzido pela fragilidade da sua raiz, via-se constrangida com a semelhança que existia com o fingimento em que sua vida se resumia.

No instante em que perdia as pétalas e as não conseguia encontrar, revisitava dados perdidos da própria memória e amargava o próprio engano de pensar que poderia se recuperar. 

Gostava de grampeá-las, pensava que assim poderia emendar-se, costurar-se até encontrar um ponto de intersecção entre a sua alma e o coração, mas, em seguida, chorava, percebia que mesmo grampeada, o seu brilho não conseguia recuperar. Era tão difícil encarar a realidade. 

Lutou bravamente, arrumou os cacos que sobraram, digo, as pétalas e recomeçou os cuidados. Devagar, de forma tranquila, molhou, regou. Um passo de cada vez para não errar novamente. 

Enfim, recomeçar!

Publicado na edição n° 5 da Revista Fluxos. Link: https://a-liter-acao.blogspot.com/2021/09/revista-fluxos-volume-02-n-05-setembro.html?m=1



quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O ANIVERSÁRIO DE BEATRIZ


Era outono. As flores caíam no quintal da casa de dona Beatriz. O dia havia amanhecido com uma expressão diferente, era o seu aniversário. Todos os anos, com um entusiasmo contagiante a vibrante mulher acordava, enfim, precisava estar bem para aquele dia tão esperado.

O sol não abrira completamente, o tempo estava meio nublado, mas, isso não a impediria de comemorar a chegada de mais uma primavera em sua vida. Era tradição fazer uma festa com os amigos mais chegados. Mudanças devem ser notadas e respeitadas. O clima parecia conspirar a favor daquele festivo dia, longo domingo.

Logo pela manhã a caravana chegou trazendo muita animação e alegria. Passearam pelo campo, visitaram os vizinhos, cantaram diversas músicas conhecidas e se alimentaram com as frutas que encontravam na casa da alegre senhora. Após o horário do almoço, distribuíram-se pela casa e dormiram boa parte da tarde.

O sol que surgira no horizonte brilhava intensamente durante todo o período vespertino, iluminando as casas dos moradores de Minas Gerais, porém, próximo à hora da partida dos seus amigos, algo inesperado aconteceu: começou a chover. Uma manga de chuva inundou a plantação de esperança e os caravanistas de pouca preocupação.

— Viemos de Kombi. A chuva foi pouca. Não temos com o quê nos preocuparmos — Pensaram os viajantes.

Era chegada a hora da partida. Todos estavam arrumados e felizes. Afinal, tinham passado um dia maravilhoso na companhia da amiga Beatriz. Os vizinhos da senhora pediram aos turistas que tomassem cuidado com a estrada, pois, poderia estar escorregadia. É sempre importante atentar aos avisos, a teimosia pode cobrar um preço muito caro de quem a persegue.

Após despedir-se da casa, os amigos seguiram o caminho de volta para casa. Antes de aproximar-se da saída da zona rural da cidade mineira, se tornava necessário passar por um lugar estreito e cheio de barrancos. Quando o motorista se preparava para ultrapassar aquele obstáculo com coragem, foi parado por um morador do local, que acenando com a mão falou assim:

— Ei, amigos. Não prossigam. A chuva deixou aquilo ali muito escorregadio. Eu mesmo quase caí — Afirmou seu Maurício.

— Estamos em um número grande, não tem como cairmos. Além disso, choveu pouco, não é suficiente para causar algum acidente — Respondeu o motorista.

Os viajantes não deram importância à palavra do homem e prosseguiram, mesmo com os avisos. A marcha ré mental poderia ter funcionado. O inevitável aconteceu: Ao dar o primeiro passo para a descida em uma ladeira, o motorista começou a sentir o efeito da chuva na estrada, o carro iniciou as mudanças bruscas. Após perder o controle e ficar rolando de um lado para o outro, essa foi a maneira encontrada para não causar uma tragédia: a kombi foi jogada contra o barranco, de maneira lenta e gradual, a mesma foi virando para baixo na ponta de outro barranco.

A sensatez poderia ter evitado esta complicação, assim como, a precipitação também comprometeria a vida de todos os caravanistas, enfim, assim como a prevenção é sempre o melhor remédio, saber escutar pode fazer toda a diferença.

Voltando a kombi, o desespero tomou conta da situação que demorou a ser controlada, principalmente pela alta quantidade de idosos no automóvel. De forma milagrosa e até admirável, conseguiram sair, mesmo com o carro virado. As pessoas ficaram ilesas de qualquer sequela ocasionada pelo acidente. Além disso, aumentaram o vocabulário, pois, aprenderam de uma forma impressionante o significado de uma manga de chuva.

 

 

 

 


 


terça-feira, 21 de setembro de 2021

REFLEXÃO NO SOFÁ

    

Sofá. Enorme móvel colocado sob a sala da minha casa. Silencioso, confortante, macio. Parado. Sem movimento. Amado e carente. Incrível conselheiro para todas as pessoas. Paciente. Santa paciência! Aguenta choros e sorrisos contagiantes, mas, lamenta.

Vi-me reclinada naquele suntuoso monumento, descrevendo a trajetória da minha vida em um simples movimento. Sentei-me no aposento, desejando ser a aposentadoria. Então descompassadamente, sorria.

Parei de sorrir, cantei a canção preferida para dormir. Meu estado perfeito. Assim como o meu amigo descansava os seus pés, imóvel não se mexia. Eu lhe fazia companhia, acalmando a minha mente de toda aquela agonia dentro daquela fazenda inútil e sem vida.

— Ou será que era eu que não tinha vida?

Não me ousaria responder a pergunta formulada por mim mesma, não estava a fim de pensar. Só sabia que amava a liberdade daquele sofá. Ninguém o viria incomodar, com perguntas sem sentido como: Você quer chá?

Eu era parecida com aquele móvel, gostava da tranquilidade, de não ter que sair do lugar. A inércia era o seu ponto fascinante, mas também, o mais intrigante. Se por um lado ficar parado parecia legal, não poder se expressar nunca foi normal.

Silêncio profundo, encarcerado pelos próprios medos e fantasias, era assim que devia se sentir. Aliás, percebi que coloquei características humanas em um objeto e desisti. Que loucura é essa?

Fui fundo na ousadia e o mudei de lugar. Quem sabe melhoraria? Que surpresa a minha! Encontrei tanta sujeira por debaixo dele que me assustei. Aquela capa linda se tornou isso, como é possível?

Refleti, respirei e finalmente entendi. A minha preguiça tinha deixado a sujeira para trás, mas, a mesma nunca tinha saído dali. Só tinha se escondido para depois voltar com mais intensidade, dando mais trabalho e me pedindo sacrifícios.

Quanto trabalho para arrumar aquela bagunça! Primeiro, retirei a carga mais pesada. Acreditem, encontrei um porta- retrato, todo esmagado com a minha foto preferida de contraste. Entristeci-me com o resultado de anos de falta de cuidados e força de vontade.

Em seguida, visualizei um lápis velho, pequeno como se tivesse cansado de ser apontado. Pela aparência, parecia que as suas pontas tinham sido feita de todas as formas: lapiseira, estilete e faca. Milagre ter suportado.

Por último, verifiquei a existência da melhor caneta vendida na fazenda, seca, sem bocal, sem nada, resistindo só o interior todo pocado. Não tinha mais como recuperar, saia tinta por todos os lados. Enfim, limpei todo o chão do sofá.

Aquela limpeza me restaurou, tirou o comodismo em que me encontrava assim como aliviou a lixeira debaixo do sofá. É incrível como algo tão lindo pôde revelar tantas obscuridades, tantas sujeiras jogadas para debaixo do tapete da sala de estar.

Decidi repensar toda a organização e localização do sofá, mudava a cada decorrer da semana, não somente a capa do móvel, mas também, passei a tirar toda a poeira que guardava aquele imenso e grandioso amigo.

Reviver, repensar, revigorar. Limpar, tirar o pó, retirar do lugar, transformar, pintar, essa era a nova e bela rotina que impus ao pobre e meigo amigo que não aguentava mais tanta mudança. Devia me achar estranha. A palavra de ordem era se reinventar.

   


sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A FAMÍLIA DO CAFÉ

     

  Viver a plenitude dos dias requer perseverança, buscar a felicidade nem sempre é o essencial quando na realidade se procura a sobrevivência. Mesmo assim, pequenos fatos da vida podem tornar os nossos dias mais alegres, mais felizes e até porque não dizer, mais saborosos.

Há mais de meio século, observava-se um país essencialmente rural, em que as famílias sobreviviam da agricultura de subsistência, os estudos eram precários, porém, percebia-se a existência de homens que sabiam passar ensinamentos valiosos. Aliás, um aspecto curioso daqueles dias, de onde vinha aquela sabedoria dos homens mais antigos? Como sabiam tantas coisas?

As respostas para estas indagações acima não são facilmente encontradas, mas, é possível formular uma hipótese: os anos dedicados ao cultivo de plantações de café, por exemplo, concedem verdadeiras lições aos seus donos.

No ano de 1950, plantações de café eram comuns nas zonas rurais do município de Bacurau. Sendo assim, existiam muitos homens trabalhando nas fazendas e cafezais. Um destes era seu Francisco, agricultor, que tinha no cultivo desta bebida seu principal sustento. Este senhor era viúvo e pai de nove filhos. Cada um com uma personalidade diferente, porém, convivendo no mesmo espaço com uma paixão em comum: o café.

Por causa do seu árduo trabalho nas fazendas, este pobre agricultor conquistou um pequeno sítio, em que criava os filhos e ao mesmo tempo trabalhava. Imaginem senhores, o que representava aquele pequeno cafezal, os cuidados que lhe demandavam ao mesmo tempo em que arava a terra, preparava o terreno para receber a semente do café, acordava e ensinava aos filhos que o trabalho é o único meio digno de sobrevivência.

            Para compreender a importância que este líquido bastava observar a rotina familiar. Se formos contar, todas as vezes em que os integrantes desta família bebiam café, perdemos muitos litros de um caldeirão quase inesgotável.

Esta bebida tem um poder viciante, é ponto de partida para as reuniões familiares, porém, nesta família ganhava uma característica peculiar e engraçada: era motivo de disputas nos copos. Todas as vezes em que era colocado na mesa para ser provado, aquele líquido delicioso que tinha um aroma irresistível e um sabor maravilhoso, a sua distribuição pelas canecas eram medidas pelos irmãos, ou seja, todos que tinham que ter a mesma quantidade, pois, se houvesse diferença, o irmão mais novo quebrava a caneca inteira com raiva. Portanto, amigos, até o café pode ser o estopim de uma guerra.

Esse conflito não bélico não durava muito tempo, só o suficiente para dar uma emoção a mais no jantar. Mas, uma das paixões nacionais do brasileiro, o café era uma das únicas certezas de toda manhã e noite. Passando de pai para filho como uma herança, praticamente todos os filhos amam esta bebida e a saboreiam todas as horas do dia.

Amigos, só tenho a dizer: Viva o café!

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O TIRO DO TATU



Assim como um dia de sol iluminava a todos os habitantes da pequena cidade de Tamanduá, a vinda da chuva alegrava a lavoura e na mesma proporção o vício ignorava a produção. Esta história será a ilustração perfeita do que a ociosidade pode fazer com o ser humano. 

Em um vilarejo do interior do Rio Grande do Sul existia um casal de agricultores que possuíam seis filhos. A idade das crianças variava entre quatro e dezenove anos. O mais velho de prenome Daniel, além de trabalhar no sítio do pai, era caçador de tatu, animal muito presente naquela região por ter uma carne deliciosa e pela pobreza dos moradores de Tamanduá.

Daniel era loiro, alto, olhos azul claros, muito trabalhador, porém, tinha um defeito capital: a bebida. Todos os sábados encaminhava-se para o bar daquela localidade. Sentava-se na cadeira e logo pedia o seu líquido preferido: a cachaça. Mais tarde, ao voltar para casa após passar todo o dia naquele estabelecimento, necessitava do auxílio de seus amigos que o acompanhavam.

Ao chegar a casa, Daniel encontrava seu pai no sofá da sala, irritado. Apesar de ter dezenove anos, o rapaz não tinha liberdade para chegar a hora que quisesse, pois, ainda não se sustentava. Mesmo levando várias broncas não modificava o seu comportamento.

Certo dia, choveu muito no vilarejo e os agricultores não puderam ir trabalhar, pois, a terra estava muito molhada e poderia causar um acidente. Sabendo disso, o mancebo decidiu ir ao bar somente para tomar dois copos de cerveja. Não pretendia demorar. Porém, encontrou um “amigo”, começou a conversar e perdeu a noção do tempo. Enfim, novamente estava bêbado.

O sol raiou. Voltou para casa, como não iria para a roça, resolveu ir caçar tatu. Pegou a arma que estava em cima do guarda-roupa do quarto do pai, colocou as balas e foi para o campo. Nesse dia, encontravam-se em casa o agricultor e sua filha mais nova, irmã do rapaz.

Posicionado no campo, Daniel resolveu carregar a arma, só esqueceu quem era o alvo. Observem: na tentativa de fazer todas as etapas de carregamento corretas, esqueceu de que não se coloca primeiro a espoleta e, pior, a espingarda estava voltada para si, parafraseando o ditado popular, a armadilha atingiu o seu criador. Como um punhal enfiado no peito, assim foi o barulho do tiro ouvido na sua casa, especialmente, pela sua irmã.   

Assim que ouviu o barulho no pasto da família, Carolina avisou o pai e saiu correndo para verificar o que havia acontecido. Ao olhar para o irmão estirado no campo, visualizou uma poça de sangue em volta do corpo. Desesperou-se. Pensou:

 — O que irei fazer? E agora, meu Deus. Meu irmão vai morrer.

Em meio aos pensamentos, choros, gritos roucos, vieram lembranças certeiras, e, em seguida, decidiu descer a ladeira em busca de ajuda. Lembrou-se de um casal da região, muito amigo de todas as famílias por serem donos de uma farmácia. Após explicar o que tinha acontecido com o irmão, pediu que o levassem para a Santa Casa de Misericórdia da cidade de Tamanduá.

Ao ouvir o relato da garota, dona Maria encarregou-se de subir por uma ladeira cheia de pedregulhos, molhada e perigosa por causa da chuva. Ao se aproximar do corpo, visualizou algo extraordinário: um buraco no peito do rapaz. Desceu aquela ladeira, como quem corre uma corrida de fórmula 1. Assim, o conduziram para o hospital.

Para o alívio de todos, chegaram. Insistiram para que o transferissem para a capital do Rio Grande do Sul, em busca de um melhor tratamento. Deixaram o médico louco de tantas insistências. Conseguiram. Daniel sobreviveu e nunca mais caçou tatus. 

Assim que se recuperou, na manhã da segunda-feira do dia dez de janeiro encaminhou-se para a roça para podar as vassouras de bruxa da roça de cacau. Seguiu todos os dias da semana dessa mesma maneira. No sábado foi na farmácia dos amigos e voltou para o lar.

Certo dia, passou um mercador no caminho 37 de Tamanduá. Daniel aproveitou para oferecer a arma dos tatus. Vendeu por um bom preço e comprou alimentos para dentro de casa. Aprender, sorrir, agradecer e viver.

Aprender com os erros é necessário, mas, olhar o local onde a pólvora da arma vai sair é muito eficaz no caso da pessoa não querer morrer na primeira sacada. Ah, e, por favor, só atire se souber. A sorte não é igual para todos. 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

RESENHA DO ROMANCE "O SEMINARISTA" DE BERNARDO GUIMARÃES


Foto do meu livro

Pertencente a geração do Romantismo brasileiro, situado na vertente regionalista deste movimento literário, Bernardo Guimarães, autor também de “ “A Escrava Isaura”, tinha linguagem e estilo característicos daquele momento histórico. Descritivo por natureza, embora mais conciso que alguns de seus conterrâneos românticos, tratou de assuntos delicados com certa leveza.

“O Seminarista” é um romance que narra a história de Eugênio e Margarida, dois jovens que foram criados como irmãos. A maneira como é realizada a abordagem do tema do celibato lembra vagamente o romance criado pelo escritor português Alexandre Herculano em “Eurico, o Presbítero”.

A temática de “O Seminarista” trata também das desigualdades sociais, preconceitos, tradição do celibato e descreve o orgulho e o egoísmo humano que não mede esforços para alcançar seus intentos com maestria, sem se importar com as consequências dos atos.

O autor utilizou a intertextualidade com a Bíblia a seu favor para tecer críticas ao fanatismo religioso, e, por que não dizer: ao ego de uma família rica que a todo custo quis mantêr o status perante a sociedade, sacrificando a felicidade do próprio filho. Além disso, fez uso desse mesmo recurso para traçar o destino de sua protagonista.

Apresentou um Eugênio obediente e ingênuo, mas que demonstrou um conflito interno, o qual consistia em uma luta travada, de um lado, pela consciência do dever religioso, e, medindo forças, o sentimento amoroso pela amiga, ponto essencial para o desenrolar da trama.

O final demonstrou o que o jogo de interesses e o desejo desenfreado pelo reconhecimento social pode causar em duas pessoas e que nem tudo o que parece ser loucura realmente é, às vezes é só a razão voltando para o corpo. Leiam o livro e, se quiserem, comentem o que acharam.
      

  

domingo, 12 de setembro de 2021

A ENCRUZILHADA DA ASSOMBRAÇÃO


Sonhando em um dia conquistar um futuro melhor, dona Anastácia e seu Euclides saíram de sua terra, a amada Cajazeiras. Esse casal vivia por quarenta anos no mesmo local em que passaram sua infância e adolescência. O que esperar do futuro? Incertezas rondavam suas mentes.

A tristeza estampada em seus rostos contrastava com a esperança de uma velhice feliz em outro lugar que oferecesse mais segurança, visto que, aquele já estava perigoso para duas pessoas solitárias. Por terem se casado tardiamente, não puderam mais ter filhos, então, a única opção foi morar próximos aos sobrinhos. Assim, construíram uma casa confortável para aquele casal adorável e venderam a antiga propriedade, já que era deserta demais.

Anos se passaram e a Cajazeiras foi perdendo seus poucos moradores. Certo dia, um viajante que vinha de Amendoeira com destino à Menescau, estava passando pelo local quando de repente ouviu um chamado de uma pessoa pedindo por ajuda, afirmando que estava presa.

Naturalmente estranhou, pois, sabia que ninguém passava por ali a anos nem existiam mais moradores, então, presumiu que devia ser engano da sua mente e cogitou a possibilidade de continuar a sua peregrinação. Porém, o grito tornou-se mais forte, então resolveu entrar pela estrada adentro para ver do que se tratava.

  Começou a ver vultos correndo e pegadas no chão, tentou segui-los, se perdeu e descobriu uma verdadeira encruzilhada, um labirinto sem saída em que assombrações eram constantes e nada lhe era explicado. O medo o dominou de tal forma que cerrou as pálpebras e soltou um grito de pavor. 

Após isso, apareceu na estrada novamente e ficou sem entender. Teria sido um delírio? Um fruto da sua imaginação? Não quis ficar para descobrir. Subitamente, seguiu o seu caminho, correndo, assustado, imaginando ter ficado louco.

Pessoas que ficaram sabendo dessa aventura ficaram curiosas e quiseram tirar a prova se isso era verdade. Os relatos se repetiam à medida que o tempo ia passando, porém, um questionamento perdurava: Qual a razão daquele lugar ter ficado mal-assombrado? Teria sido o abandono?

Sem saber o verdadeiro motivo, os antigos moradores começaram a espalhar boatos. Disseram que um dos habitantes antigos tinha presenciado um crime e desde então, o local havia sido amaldiçoado.  Mas, o que ganhou força e notoriedade foi a hipótese de em algum quintal haver ouro e como ninguém conseguiu encontrar estas coisas aconteciam. 

A verdade é que nada foi provado, nenhuma hipótese levantada parece ter fundamento. Quanto ao que o viajante viu e sentiu não houve explicação. Realidade ou fruto da imaginação? 

Os questionamentos continuaram até que seu Euclides resolveu verificar o que estava ocorrendo no local que cresceu. Certo dia, determinado a desvendar aquele mistério tão intrigante, o bondoso senhor visitou os seus antigos amigos para colocar a conversa em dia. Primeiro foi na casa da dona Isaura, sua cunhada. Após adentrar a casa, o diálogo procedeu da seguinte maneira:

- Bom dia, Isaura. Como é que andam as coisas? Fiquei sabendo de umas conversas estranhas sobre a nossa Cajazeiras - Disse o cunhado.

- Mas, homem, essas histórias já chegaram por lá? Parece que o lugar ficou mal-assombrado, toda hora me vem gente falar que viu fantasmas. Acredita que até meu netinho saiu assustado. Ele disse que viu a madrinha que morreu - Respondeu Isaura.

Seu Euclides questionou a cunhada o horário em que o neto viu a suposta madrinha. Em posse dos detalhes, resolveu ir ao lugar exato em que isso ocorrera. Quando se aproximou percebeu que por trás de uma pedra tinha um pedaço de lençol branco caído. A princípio achou que não fosse nada demais, mas, caminhando ao redor da pedra encontrou uma gargantilha com as iniciais D.L.R. De quem seria aquilo? Não se lembrava de ninguém com este nome.

Como em um lapso de memória lembrou-se de um velho conhecido, extrator de minerais, Diógenes Leal Ribeiro. Tremeu-se de susto. Havia resolvido o mistério da autoria. Mas, por quê? Qual a motivação daquele homem em assustar o povo.

A população havia acertado em pensar que havia ouro na terra, mas, se equivocou ao vislumbrar fantasmas. Isso nunca existiu. A velha Cajazeiras era rica em minérios, uma verdadeira mina de ouro. Sabendo disso, o esperto do Diógenes colocou pessoas disfarçadas de fantasmas para assustar a população, para que pudesse haver a extração do ouro sem pagamentos de indenizações. Todos ficaram sabendo.  A revolta foi geral. Anos depois, o local foi habitado novamente. Os moradores ficaram ricos com a extração do ouro feita pelo homem “esperto” que passou a espantar os colegas na cadeia de Santa Diamantina. 



sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O SEGREDO DA GALINHA

 

Todos os domingos a cozinha de dona Eulália era testemunha da mais notória alimentação daquele povoado: a galinha assada. Aquela senhora de mais de oitenta anos trazia consigo a maturidade adquirida com a experiência de uma vida dedicada a família. Um exemplo notável naquela região.

Com características peculiares de uma mulher do interior, dona Eulália era bondosa, amável, dedicada, excelente anfitriã e uma cozinheira para nenhum chefe de cozinha colocar defeito.

Por causa da excelência na cozinha não aceitava que nenhum dos seus parentes ou amigos saíssem da sua casa sem se alimentar. Sempre tinha um bolo, um suco, um refrigerante e um café. Não comer? Impossível, como percebem, não existia escapatória.

Além de fazer pratos deliciosos, seu principal passatempo era andar o dia todo de um lado para o outro, para fazer compras e até mesmo para ir até o quintal. Engraçado, não é? Porém, ela tinha um segredo: o preparo da galinha assada. Acham que a boa senhora revelou para alguém como fazia aquela delícia?

Vamos ao fato: Todos tentavam descobrir aquela fórmula secreta.  Certo dia, uma das suas sobrinhas, filha da sua irmã, perguntou a tia:

 

 — Tia Eulália, me ensina a fazer essa galinha?

 — Não, beth. Nem pense nisso!

Queria irritá-la? era só perguntar como ela assava a ave gostosa. A esperteza mora com a astúcia. Sabendo disso, a receita era bem guardada, isso todos sabiam. Mas, em que local? Visto que ninguém encontrava. Há lugares tão bem escondidos que nunca são encontrados.

Passou-se anos até que dona Eulália adoeceu e infelizmente veio a falecer. Após o tempo do luto e a divisão dos bens, a possível receita escrita foi procurada.

Finalmente encontraram um papel no qual parecia estar copiado o segredo da galinha. No entanto estava escrito:

“A memória precede a escrita.”

Portanto, o segredo morreu junto com a sua dona sem nunca ter sido revelado. 

O COLECIONADOR DAS MOEDAS DE OURO

 

Um homem muito inteligente, morador da Etiópia era colecionador de moedas de ouro, as quais eram guardadas em um baú grandiosíssimo, escondido debaixo do chão da sua casa. Aristides possuía poucos amigos, não era chegado a festas nem a encontros. Era solteiro, por escolha própria, não queria ter preocupações extras em seu orçamento mensal.

Viver sob os holofotes da mídia não era o seu alvo de vida, por isso, lutava para distanciar-se das pessoas de forma tal que raramente o viam. Certo dia, sentiu-se mal, assim, gritou por ajuda ao que foi prontamente atendido por um transeunte que estava passando na rua.

Esse homem que o ajudou foi um morador de rua e se chamava Samuel. O mesmo o levou para o hospital, só que o problema do coração se agravou causando o seu óbito. Em seu enterro, somente o homem de bom coração compareceu.

Aparentemente, estava tudo encerrado: As aparências enganam e a herança também! Não tendo parentes, a casa ficou para o governo. Mas, e as moedas? Essa é  outra história.

Em uma noite, passados seis meses da morte do colecionador, o morador de rua estava dormindo “tranquilamente” até que ouviu uma voz sussurrando em seu ouvido pedindo que ele fosse ao quintal da casa do Aristides cavar um baú cheio de moedas de ouro, pois, assim ficaria rico e sairia daquela condição.

Sabem qual foi a reação do rapaz? Só digo que até o cemitério tomou susto. Passada aquela neurose que durou a noite inteira, se acalmou e voltou a dormir, concluindo que foi apenas uma brincadeira de mau gosto de algum dos seus colegas.

As noites se passavam da mesma maneira, até que um dia resolveu atender ao pedido e ver do que se tratava. Porém, lhe apareceu uma única condição: teria que tirar um pouco de sangue do próprio dedo e jogar em cima do baú. Era uma forma de reconhecimento pessoal.

Imaginem a cena épica: Samuel foi ao encontro no lugar determinado para iniciar o processo de descobrimento do baú. Na primeira tentativa, descobriu que seria mais fácil redescobrir a América. Na segunda tentativa, houve um pequeno erro de cálculo e quase foi aterrado tamanho a quantidade de areia. E, na última vez, finalmente alcançou o intento e observou o baú.

Lembrou-se do sangue do dedo, só que como esperteza e inteligência são distribuídas igualmente na “fila do pão”, Samuel escolheu a primeira alternativa e, pasmem, tirou o sangue de uma galinha para colocar no baú achando que a criatura do além não iria perceber a diferença.

Ao perceber que o sangue não era do dedo e sim da ave, o além fez o baú desaparecer. Ele só ouviu o estrondo das moedas de ouro caindo debaixo da terra. E assim perdeu a única chance de mudar de vida. Conterrâneos desse homem garantem a veracidade da história.

Misticismo ou realidade? Escolham a melhor opção. 

 

 


 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

A APOTEOSE DO LUAR


 Em uma noite com luar, erguiam-se sombras de insolações no céu. Símbolos de um dia “magnífico” que estava por vir. Na manhã do dia 24 de agosto de 2003, ocorreria a formatura do filho caçula da família do médico renomado Daniel Côrtez. A felicidade dominava aquele local de forma tal que não viam as evidências de uma tragédia.

O menino Danilo estava ansioso, nervoso, por isso decidiu ir na véspera do evento tão aguardado a uma festa com os seus amigos. Como em um ritual de educação inesperado, antes de prosseguir para o seu derradeiro propósito, pediu a permissão dos seus pais que o consentiram sem nenhuma objeção. Somente o seu pai lhe disse algo:

— Tome cuidado! Não venha tarde, amanhã é o grande dia. 

Conselho ao que o menino retrucou:

— Ok. Volto antes das 23 h.

Assim como o inesperado acontece, atitudes impensadas também abrem brechas para as consequências. Sendo assim, Danilo encontrou-se com os amigos e seguiu. Na travessia da rua Truce, quase ocorreu um acidente. Um motorista bêbado se colocou na frente do carro dos garotos e por pouco não ocorreu um eclipse lunar.

Aquele episódio poderia ter sido entendido como um sinal de que era melhor voltar, prosseguir seria burrice. Ainda mais depois do que o amigo do bêbado falou:

— Não prossigam. O caminho é tortuoso. A chuva deixou o caminho movediço e perigoso. 

Mas, teimosia é contagiosa e os garotos “destemidos” trilharam o caminho da morte. Recuar seria falta de coragem. Será?

As horas se passavam e Danilo não voltava para casa, os celulares estavam desligados, não tinha como rastrear. O desespero bateu a porta das famílias dos garotos. Encontraram o carro, mas, a eles ninguém encontrou. Eis um mistério.

Tentaram descobrir o que era aquela luz dita pelos jovens do dia do acidente. Descobriram e se assustaram: O sol encontrara a lua em uma apoteose jamais vista no planeta Terra condicionando aos seus filhos iluminação plena do sistema solar. Resumindo: estavam mortos. 

Aquela luz representava a transformação de um ser humano em divindade, porém, como ninguém tem esse direito, o insolente que obtivesse a ambição de atravessá-la era queimado vivo.

E assim, se foi um sonho, uma ambição e deparou-se com a realidade de uma vida entre escombros de uma iluminação mortal.


terça-feira, 7 de setembro de 2021

A "SANTA" PROTETORA DOS VEGETAIS


Entre as verdes colinas do bosque de seu Bartolomeu existiam todas as

diversidades de plantas que se possa imaginar, além de coqueiros, frutas e

hortaliças. O local parecia ser um paraíso. Neste bosque moravam treze

pessoas, das quais a maioria eram funcionários. O bosque era um ponto

turístico de importância econômica para a cidade de Amaral.

Todos os finais de semana, o bosque Polar recebia cerca de duzentos

turistas vindo das mais diversas cidades do estado de Goiás. Aquele local

recebeu na primeira semana de agosto uma das maiores caravanas de toda a

existência e o seu Bartolomeu estava muito feliz. Porém, em uma quarta-feira,

dia 23 de setembro, mês da primavera, em que as plantas deveriam estar mais

floridas, ocorria o contrário.

Instaurou-se um mistério principalmente por causa das orquídeas, flores

que se cuidadas corretamente permanecem lindas durante toda a estação.

Diferente dos outros anos, as orquídeas estavam murchando e morrendo,

mesmo sendo cuidadas corretamente por seu Bartolomeu que não se cansava

de olhar as suas lindas flores e plantas, por isso, não entendia a razão da

morte delas.

Resolveu investigar silenciosamente sem comunicar a nenhum dos seus

funcionários ou parentes. Todos os dias, como de costume, ia ao bosque visitar

todas as plantas, olhava até a raiz com a desculpa de acompanhar o

crescimento das mesmas. Passou um mês em uma intensa fiscalização. Não

descobriu nada. Aparentemente, estava tudo correto.

O bosque Polar era um lugar limpo, muito visitado, mas, de vez

em quando causava alguns problemas com os vizinhos encrenqueiros que não

suportavam as plantas por causa dos mosquitos que frequentemente

apareciam nas casas. Então, se fosse procurar culpados teria trabalho, pois,

investigaria boa parte da vizinhança, menos dona Efigênia.

A boa senhora era amiga de seu Bartolomeu, inclusive frequentava

aquele local constantemente em busca de sementes de flores para plantar em

seu pequeno quintal de três metros.

Certo dia, ela confidenciou ao amigo que vira um homem de capuz

preto colocar algo nas orquídeas e depois fugir. Disse a hora exata do suposto

crime e todos os detalhes. O dono do bosque estranhou a exatidão de

detalhes, parecia que ela tinha participado da ação. No final, dona Efigênia

revelou que o nome do envenenador das plantas era o vizinho deles, Samuel.

O sábio homem fingiu que acreditou na mulher, mas, armou uma

arapuca perfeita para o criminoso. Simplesmente, colocou câmeras e uma

armadilha no pé de orquídea. Amarrou uma corda na raiz da flor, assim, no

momento em que a pessoa segurasse a corda seria pega.

Logo ao amanhecer, seu Bartolomeu foi correndo ao jardim. Ao

visualizar que a emboscada dera certo, a alegria convertera-se em tristeza

quando descobriu quem era o matador. Em um ímpeto, gritou:

— Efigênia, era você esse tempo todo? Como foste capaz de envenenar

o meu jardim?

— Sim, fui eu. Para que vou negar? Vai fazer o quê? Mandar me

prender por ter envenenado algumas Orquídeas? Cansei da fama desse

bosque e das importunações dos animais peçonhentos.

Aquele senhor ficou indignado, pensou em expulsá-la naquele momento,

mas, não conseguiu segurar a risada a vendo presa na emboscada. Assim

mesmo, amigos! O tiro pode sair pela culatra, mas uma armadilha jamais. Ela

foi pega, mas ao contrário do que se pensa não com veneno e sim com água.

Explico: O excesso de água pode causar a morte da orquídea e intensificar o

processo de morte de outras plantas. Invejando a fama do bosque, a “boa”

senhora queria terminar com o bosque matando todas as suas plantas de

forma lenta e gradual, para poder comprá-lo.

O melhor ainda estava por vim: como forma de castigo por esse ato,

para não ser denunciada, dona Efigênia teve que cuidar e zelar do jardim

durante um ano com a supervisão de um dos funcionários, tornando-se a

“santa” protetora dos vegetais. Olhem que maravilhoso título de nobreza!

domingo, 5 de setembro de 2021

O ANO DA ESPERANÇA


 Entre o nascimento de um louva a Deus e o surgimento da cicatriz,

ilumina-se o céu para a próspera vinda do ano vindouro,

o arco- íris do amor é pintado novamente no planeta terrestre

e a dor de outrora desaparece oferecendo seu lugar à sonhada esperança.

Esperar, oh! Esperar, palavra reutilizada por tantas vezes,

tantos sentimentos ocultos trazidos à tona por este verbo.

O acender da compaixão, o valor da solidariedade,

Superação dos próprios limites em prol da vida do irmão.

Cura... palavra essencial, encontrada no ano que virá,

Emocional, psicológica, física, mental e sensorial,

Mas, a principal, a do ser humano, reflorescer, transparecer,

Ser realmente humano, colocar-se no lugar, a sorrir.

Na posição, no andar, aprender a perdoar, a chorar,

a se alegrar, a amar, a ser empático, a iluminar o dia.

 O que posso esperar do ano de 2021?

Que o homem aprenda a ser humano.


Poema publicado na Revista Literária Inversos. 14ª edição. Janeiro/2021.

sábado, 4 de setembro de 2021

A MESA PERFEITA


               Um lago. Águas deitadas mansamente em direção ao mar. Ao lado, árvores frondosas, cheias de folhas caindo. Flutua, analisa, verbaliza a vontade de continuar caminhando em direção ao destino. Observa os peixes a nadar e sonha em ter a liberdade infinita de viajar por vias desconhecidas. O desejo ressurge e desaparece como em um sonho.

        Lago do móvel de dona Terezinha. Sua dona havia morrido há sete anos mas, lhe deixara uma herança preciosa, a mesa de quatro pernas perfeitas. Era um primor. Todos os dias, a sua atividade preferida era ver os peixes na beirada e sentir o ar fresco do local.

       Sempre fora bem cuidada por sua dona a quem considerava uma amiga, com a morte desta ficara abandonada no jardim próximo as árvores e ao lago. A única companhia que tinha eram os visitantes que depositavam nela tudo o que cabia.

Era grandiosa, de madeira vermelha, dividida em fileiras, como se estivesse obedecendo a uma ordem da natureza. Contemplava os animais para ver neles características que desejava ter. Queria saltar como o canguru, nadar como o peixe, voar como os pássaros, mas, o seu maior sonho era ser o leão.

Um dia, algo incomodou aquela linda mesinha: durante a tarde, o vento soprava mais forte no lago e fazia cair muitas folhas e muitos espinhos em cima dela. Percebendo a direção do vento, tentava se mexer, mas por algum motivo, não conseguia, e, então, o esforço era inútil. Nenhum dos visitantes percebia.

Os espinhos machucavam e torturavam a pobrezinha, furavam a toalha que ainda tinha, a deixando desprotegida em meio a chuva e aos ventos. Por estar a muitos anos naquele lugar, as pessoas colocavam seus pertences pesados em cima dela, sem importar com o peso que carregava por causa da idade. Aliás, sequer percebiam.

Tentava se livrar do peso indesejado, mas algo a impedia, a falta de força a fez acomodar e a acostumar-se a levar as cargas dos turistas como se fossem suas. Com o passar dos anos, fingia resiliência com o futuro, perdia a resistência.

Há muitos anos não enfrentava um sol quente, geralmente o clima era fresco. Aquele ano era atípico, o pior ainda estava por vir. Calor insuportável, principalmente para quem tinha perdido a proteção da sua toalhinha, totalmente estragada pela quantidade de espinhos que a atormentava.

No meio do verão, contrariando todas as previsões do tempo, a chuva apareceu acompanhada do vento. Forte, perene como um furacão enfurecido levava tudo o que encontrava pela frente. A água do lago subiu de tal maneira que invadiu o jardim.

Pela primeira vez, quisera permanecer parada. O medo do que via a dominou. Em minutos, as perninhas molhadas não resistiram ao tempo e foram perdendo a cor e se descolaram por completo, o brilho já havia se perdido em meio aos descuidos

O desejo de ser um leão tornava-se cada vez mais latente e distante, sentia vontade de gritar, porém, lembrava a sua desumanidade e chorava, sim, chorava, compulsivamente, ao perceber o seu completo isolamento em meio aquela agressão da natureza.

Por muitos anos, iludiu-se com a ideia de que era útil para alguém, mas, ao envelhecer percebeu a sua insignificância perante as pessoas a quem servia. No momento em que viu a sua perna de sustentação se descolando, exclamou:

— O que eu fiz? Porque não resistir? Ô ilusão de quem pensa que é insubstituível.

Refletiu na queda da perna, quando acreditou não ter mais saída. Nunca quis sair dali. Estava conformada com o seu destino. A vida apronta surpresas que nem aquele que se considera o melhor vidente é capaz de prever.

A pombinha não sobreviveu aos ataques constantes das cobras peçonhentas e dos morcegos impertinentes, esses a visitavam todos os dias, porém, no dia em que mais precisou nenhum destes apareceu. Sua madeira foi levada pela correnteza e encontrou-se com o destino incerto das cadeiras.

No dia seguinte, os visitantes não a encontraram no local, assim que entenderam o acontecido, lamentaram por não tê-la mais para colocar o peso. Em pouco tempo, arrumaram outra mesa perfeita, bela, vermelha e colocaram no lugar.


Texto de minha autoria foi publicado na 25ª edição da Revista Literalivre. Segue o site: https://cultissimo.wixsite.com/revistaliteralivre.  

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

VONTADE DE VIVER

 

Quando olho para trás

vejo um quadro pendurado na parede,

sinto a juventude que ali adormece

ou que morreu nas friezas da alma.

Ah! O tempo!

Esse é implacável conosco,

amigo das lembranças,

sejam boas ou ruins.

Mas, sabe de algo?

Quero viver o que ainda não vivi,

sonhar, imaginar, correr, pular,

sentar em um balanço outra vez.

Não estou disposta a entrar no esquecimento,

a enfeitar as estatísticas daqueles que nada fizeram,

dos que nada viveram.

Não! Não permito que me digam como viver.

Por que morrer? Morre-se na esquina,

morre-se a cada dia de uma dor tão dolorida,

morre um de cada vez.


Poema publicado no suplemento da edição 5 da Revista SerEsta. Link: https://drive.google.com/file/d/1F7q31uGKjtAyy6pfIVcEUBGQGz_zxp0t/view.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

SORAYA E O MAR

 

Com o nascimento de um novo dia surge a esperança do aparecimento de um belo amanhecer, de um sol que ilumina a todos os cidadãos das cidades e também das zonas rurais. Por meio da expressão contínua do calor, têm-se a sensação de estarmos no verão.

Mas, qual é o encanto dessa estação? O que a faz ser amada e esperada por tantas pessoas? Soraya sabia a resposta. Habitando em um vilarejo do interior, esta mulher de trinta anos ansiava pelo verão para se encontrar com a sua maior paixão, o mar.

Ao chegar o verão, Soraya arrumou as suas malas e disse aos seus pais e parentes que iria para a cidade de Copacabana, para o seu encontro anual com o mar. Os seus pais não entendiam qual era o fascínio que a filha tinha pelo mar, que fazia a mesma enfrentar oito horas de viagem. Eles se questionavam qual a importância disso? Então, observe esta linha de raciocínio.

Em sua concepção, o mar era a libertação, o encontro consigo mesma, o local em que a corajosa trabalhadora enfrentava todos os seus medos: de morrer sem ter realizado os seus sonhos, de perder os entes queridos sem ter feito  o possível para ajudá-los, de não encontrar alguém para formar uma família, entre outras frustrações que pairavam pela sua mente.

Soraya gostava de sentar na areia quente e ver as competições de surfe que tinham na época do verão. Era um verdadeiro encontro. Mas, qual a razão da fixação por assentar-se na areia quente? Era simples o motivo. Na realidade, a areia representava todos os desafios pelos quais atravessava naquele período. Então, ao colocar uma toalha em cima, ela lembrava que havia momentos em que as dores amenizavam, por isso, preferia enfrentá-las de uma vez.

A competição era o momento mais esperado. A primeira onda vencida, a menor, representavam todos os pequenos medos de Soraya, como, por exemplo, a primeira vez em que foi em uma roda gigante, aquele brinquedo que para uma criança tão pequena simbolizava o fim, e, no entanto, se tornou a sua diversão preferida.

A cada onda vencida pelo surfista vinha a lembrança de um medo ou frustração superada. Porém, em cada queda, em cada onda gigante vinha a sensação das maiores dores da vida, aquelas difíceis de superar, como a morte de um primo muito amado por causa de uma doença degenerativa.

Só que nestas derrotas e vitórias, ela não se esquecia do papel fundamental da prancha. O equilíbrio perfeito entre o surfista e as ondas, assim como na vida. É preciso ser equilibrado para não afundar nas ondas grandes e humilde para não subestimar as ondas pequenas.

Ah, mas, após tudo isso, o triunfo, a vitória final! Que doce sentimento, que emoção maravilhosa, não só pela alegria do vencedor, mas, pela representação daquele gesto, choro de alegria, de ter finalmente vencido a dor, assim como a exultação resultante do encontro do amor.

Por meio daquelas areias e ondas, Soraya havia encontrado o amor, a superação da dor, através do melhor encontro que a mesma poderia ter. Ela percebeu que o mar era formado não só por águas profundas, mas também, pelo verdadeiro elo que liga a todos, o amor e que assim como no surfe você pode cair e se levantar quantas vezes forem necessárias, utilizando o exemplo da prancha, é só saber se equilibrar.    

  Conto de minha autoria publicado no 2º número da Revista Ecos da Palavra, cujo tema foi: o verão: o mar e o amor. Segue o link: https://issuu.com/ecosdapalavra/docs/2_numero.


 

 

 

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Boa noite, amigos! Nada melhor para começar esse blog do que postar esse mini- cordel que fiz sobre uma tia muito querida: Donata Clara de Souza.

 

Donata Clara de Souza


Nascida em novembro,

no interior da Bahia,

essa era Donata Clara

que a todos queria,

ensinou uma lição

de amor, sabedoria.


Mulher inteligente,

analfabeta também,

contadora de histórias,

falava muito bem,

gostava dos sobrinhos

e da família também.


Aos noventa anos,

a estrela se apagou,

a boa senhora morreu,

o seu brilho aqui deixou.

Com a memória lúcida,

a todos encantou.

Poema

  Lágrimas jorram de um pote Salvar ou deixar? As carnes apodrecidas clamam por um asilo No meio de tanta balbúrdia e dor. O homem sobrevive...