sábado, 4 de setembro de 2021

A MESA PERFEITA


               Um lago. Águas deitadas mansamente em direção ao mar. Ao lado, árvores frondosas, cheias de folhas caindo. Flutua, analisa, verbaliza a vontade de continuar caminhando em direção ao destino. Observa os peixes a nadar e sonha em ter a liberdade infinita de viajar por vias desconhecidas. O desejo ressurge e desaparece como em um sonho.

        Lago do móvel de dona Terezinha. Sua dona havia morrido há sete anos mas, lhe deixara uma herança preciosa, a mesa de quatro pernas perfeitas. Era um primor. Todos os dias, a sua atividade preferida era ver os peixes na beirada e sentir o ar fresco do local.

       Sempre fora bem cuidada por sua dona a quem considerava uma amiga, com a morte desta ficara abandonada no jardim próximo as árvores e ao lago. A única companhia que tinha eram os visitantes que depositavam nela tudo o que cabia.

Era grandiosa, de madeira vermelha, dividida em fileiras, como se estivesse obedecendo a uma ordem da natureza. Contemplava os animais para ver neles características que desejava ter. Queria saltar como o canguru, nadar como o peixe, voar como os pássaros, mas, o seu maior sonho era ser o leão.

Um dia, algo incomodou aquela linda mesinha: durante a tarde, o vento soprava mais forte no lago e fazia cair muitas folhas e muitos espinhos em cima dela. Percebendo a direção do vento, tentava se mexer, mas por algum motivo, não conseguia, e, então, o esforço era inútil. Nenhum dos visitantes percebia.

Os espinhos machucavam e torturavam a pobrezinha, furavam a toalha que ainda tinha, a deixando desprotegida em meio a chuva e aos ventos. Por estar a muitos anos naquele lugar, as pessoas colocavam seus pertences pesados em cima dela, sem importar com o peso que carregava por causa da idade. Aliás, sequer percebiam.

Tentava se livrar do peso indesejado, mas algo a impedia, a falta de força a fez acomodar e a acostumar-se a levar as cargas dos turistas como se fossem suas. Com o passar dos anos, fingia resiliência com o futuro, perdia a resistência.

Há muitos anos não enfrentava um sol quente, geralmente o clima era fresco. Aquele ano era atípico, o pior ainda estava por vir. Calor insuportável, principalmente para quem tinha perdido a proteção da sua toalhinha, totalmente estragada pela quantidade de espinhos que a atormentava.

No meio do verão, contrariando todas as previsões do tempo, a chuva apareceu acompanhada do vento. Forte, perene como um furacão enfurecido levava tudo o que encontrava pela frente. A água do lago subiu de tal maneira que invadiu o jardim.

Pela primeira vez, quisera permanecer parada. O medo do que via a dominou. Em minutos, as perninhas molhadas não resistiram ao tempo e foram perdendo a cor e se descolaram por completo, o brilho já havia se perdido em meio aos descuidos

O desejo de ser um leão tornava-se cada vez mais latente e distante, sentia vontade de gritar, porém, lembrava a sua desumanidade e chorava, sim, chorava, compulsivamente, ao perceber o seu completo isolamento em meio aquela agressão da natureza.

Por muitos anos, iludiu-se com a ideia de que era útil para alguém, mas, ao envelhecer percebeu a sua insignificância perante as pessoas a quem servia. No momento em que viu a sua perna de sustentação se descolando, exclamou:

— O que eu fiz? Porque não resistir? Ô ilusão de quem pensa que é insubstituível.

Refletiu na queda da perna, quando acreditou não ter mais saída. Nunca quis sair dali. Estava conformada com o seu destino. A vida apronta surpresas que nem aquele que se considera o melhor vidente é capaz de prever.

A pombinha não sobreviveu aos ataques constantes das cobras peçonhentas e dos morcegos impertinentes, esses a visitavam todos os dias, porém, no dia em que mais precisou nenhum destes apareceu. Sua madeira foi levada pela correnteza e encontrou-se com o destino incerto das cadeiras.

No dia seguinte, os visitantes não a encontraram no local, assim que entenderam o acontecido, lamentaram por não tê-la mais para colocar o peso. Em pouco tempo, arrumaram outra mesa perfeita, bela, vermelha e colocaram no lugar.


Texto de minha autoria foi publicado na 25ª edição da Revista Literalivre. Segue o site: https://cultissimo.wixsite.com/revistaliteralivre.  

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