Existia uma flor no quintal da casa de Cecília muito especial, era conhecida como a flor de Cilicia. Assim como a patroa, era cheia de manias, exalava um cheiro doce, era alva por fora, mas, quando desabrochava era vermelha como escarlate. Por diversas vezes se confundia com a rosa vermelha, de tão bonita.
Aquela planta não era comum. Todos os dias recebia cuidados especiais. Certo dia, a pequena Ceci foi regá-la, mas, desistiu quando verificou que o excesso de zelo a estava matando, cortando suas oportunidades de crescer saudável como as suas amigas herbívoras. Nesse instante, a garota sentiu a dor da florzinha, porque sabia o que era ser superprotegida, pois, assim percebia quando os pais não a deixavam sair por medo do perigo.
Olhava para a amiguinha e via que cada vez que a plantinha se abria trazia uma cor alegre, a qual deixava o seu dia mais feliz e aproveitava para tirar a raiz com o objetivo de brincar com as pétalas, mas, pressentia a tristeza estampada no pé e que a cada flor tirada, a alegria diminuía.
Era o contraste de sentimentos mais perfeito que já sentiu, ao despedaçar a flor notava a morte da mesma e assim percebia que na verdade o seu ser também perdia a sensibilidade após tantas palavras mal ditas. Ela procurava a maneira de se curar na natureza, mas, revivia sem perceber cada dor sofrida.
Como em um ritual estranho, a menina decidia colar cada pedaço da flor morta com a cola maluca, mas, não adiantava. Era inútil, pois, no mesmo minuto tudo desmontava mais desajustado, com manchas em toda parte e divisível. Desistiu, mas, algo a fazia resistir aquele ímpeto de queimar aqueles pedaços que sobraram.
Resolveu grampear, em uma tentativa absurda de se redimir, tentava de diversas maneiras salvar aquela flor e quem sabe a si mesma, questão de honra se tornara, não podia falhar, indispensável por algum motivo a reconstrução.
Atormentara-se com a possibilidade de errar novamente, de o grampo faltar, da respiração não voltar. Notara que era impossível grampear várias pétalas, e, mesmo que conseguisse, jamais voltaria ao normal. Seria emendada, como se tivesse sido costurada. Preferia isso à consciência pesada.
Comportamento inexplicável daquela menina acostumada a regar e a vê-las morrer para depois renascer como as fênix, mas, com aquela herbívora era diferente, a associara à sua própria vida, somente isto explicaria tanto empenho em “ressuscitá-la”. Parecia que o seu desejo era reviver por meio daquela florzinha.
Ao conseguir juntar as pétalas sentia como se estivesse juntando os cacos da alma despedaçada pelos anos em profundo silêncio. Quando pensava no riso amargo da amiga traduzido pela fragilidade da sua raiz, via-se constrangida com a semelhança que existia com o fingimento em que sua vida se resumia.
No instante em que perdia as pétalas e as não conseguia encontrar, revisitava dados perdidos da própria memória e amargava o próprio engano de pensar que poderia se recuperar.
Gostava de grampeá-las, pensava que assim poderia emendar-se, costurar-se até encontrar um ponto de intersecção entre a sua alma e o coração, mas, em seguida, chorava, percebia que mesmo grampeada, o seu brilho não conseguia recuperar. Era tão difícil encarar a realidade.
Lutou bravamente, arrumou os cacos que sobraram, digo, as pétalas e recomeçou os cuidados. Devagar, de forma tranquila, molhou, regou. Um passo de cada vez para não errar novamente.
Enfim, recomeçar!
Publicado na edição n° 5 da Revista Fluxos. Link: https://a-liter-acao.blogspot.com/2021/09/revista-fluxos-volume-02-n-05-setembro.html?m=1
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