Sofá. Enorme móvel colocado sob a sala da minha casa. Silencioso, confortante, macio. Parado. Sem movimento. Amado e carente. Incrível conselheiro para todas as pessoas. Paciente. Santa paciência! Aguenta choros e sorrisos contagiantes, mas, lamenta.
Vi-me
reclinada naquele suntuoso monumento, descrevendo a trajetória da minha vida em
um simples movimento. Sentei-me no aposento, desejando ser a aposentadoria.
Então descompassadamente, sorria.
Parei
de sorrir, cantei a canção preferida para dormir. Meu estado perfeito. Assim
como o meu amigo descansava os seus pés, imóvel não se mexia. Eu lhe fazia
companhia, acalmando a minha mente de toda aquela agonia dentro daquela fazenda
inútil e sem vida.
—
Ou será que era eu que não tinha vida?
Não
me ousaria responder a pergunta formulada por mim mesma, não estava a fim de
pensar. Só sabia que amava a liberdade daquele sofá. Ninguém o viria incomodar,
com perguntas sem sentido como: Você quer chá?
Eu
era parecida com aquele móvel, gostava da tranquilidade, de não ter que sair do
lugar. A inércia era o seu ponto fascinante, mas também, o mais intrigante. Se
por um lado ficar parado parecia legal, não poder se expressar nunca foi
normal.
Silêncio
profundo, encarcerado pelos próprios medos e fantasias, era assim que devia se
sentir. Aliás, percebi que coloquei características humanas em um objeto e
desisti. Que loucura é essa?
Fui
fundo na ousadia e o mudei de lugar. Quem sabe melhoraria? Que surpresa a
minha! Encontrei tanta sujeira por debaixo dele que me assustei. Aquela capa
linda se tornou isso, como é possível?
Refleti,
respirei e finalmente entendi. A minha preguiça tinha deixado a sujeira para
trás, mas, a mesma nunca tinha saído dali. Só tinha se escondido para depois
voltar com mais intensidade, dando mais trabalho e me pedindo sacrifícios.
Quanto
trabalho para arrumar aquela bagunça! Primeiro, retirei a carga mais pesada.
Acreditem, encontrei um porta- retrato, todo esmagado com a minha foto
preferida de contraste. Entristeci-me com o resultado de anos de falta de
cuidados e força de vontade.
Em
seguida, visualizei um lápis velho, pequeno como se tivesse cansado de ser
apontado. Pela aparência, parecia que as suas pontas tinham sido feita de todas
as formas: lapiseira, estilete e faca. Milagre ter suportado.
Por
último, verifiquei a existência da melhor caneta vendida na fazenda, seca, sem
bocal, sem nada, resistindo só o interior todo pocado. Não tinha mais como
recuperar, saia tinta por todos os lados. Enfim, limpei todo o chão do sofá.
Aquela
limpeza me restaurou, tirou o comodismo em que me encontrava assim como aliviou
a lixeira debaixo do sofá. É incrível como algo tão lindo pôde revelar tantas
obscuridades, tantas sujeiras jogadas para debaixo do tapete da sala de estar.
Decidi
repensar toda a organização e localização do sofá, mudava a cada decorrer da
semana, não somente a capa do móvel, mas também, passei a tirar toda a poeira
que guardava aquele imenso e grandioso amigo.
Reviver,
repensar, revigorar. Limpar, tirar o pó, retirar do lugar, transformar, pintar,
essa era a nova e bela rotina que impus ao pobre e meigo amigo que não
aguentava mais tanta mudança. Devia me achar estranha. A palavra de ordem era
se reinventar.
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