terça-feira, 21 de setembro de 2021

REFLEXÃO NO SOFÁ

    

Sofá. Enorme móvel colocado sob a sala da minha casa. Silencioso, confortante, macio. Parado. Sem movimento. Amado e carente. Incrível conselheiro para todas as pessoas. Paciente. Santa paciência! Aguenta choros e sorrisos contagiantes, mas, lamenta.

Vi-me reclinada naquele suntuoso monumento, descrevendo a trajetória da minha vida em um simples movimento. Sentei-me no aposento, desejando ser a aposentadoria. Então descompassadamente, sorria.

Parei de sorrir, cantei a canção preferida para dormir. Meu estado perfeito. Assim como o meu amigo descansava os seus pés, imóvel não se mexia. Eu lhe fazia companhia, acalmando a minha mente de toda aquela agonia dentro daquela fazenda inútil e sem vida.

— Ou será que era eu que não tinha vida?

Não me ousaria responder a pergunta formulada por mim mesma, não estava a fim de pensar. Só sabia que amava a liberdade daquele sofá. Ninguém o viria incomodar, com perguntas sem sentido como: Você quer chá?

Eu era parecida com aquele móvel, gostava da tranquilidade, de não ter que sair do lugar. A inércia era o seu ponto fascinante, mas também, o mais intrigante. Se por um lado ficar parado parecia legal, não poder se expressar nunca foi normal.

Silêncio profundo, encarcerado pelos próprios medos e fantasias, era assim que devia se sentir. Aliás, percebi que coloquei características humanas em um objeto e desisti. Que loucura é essa?

Fui fundo na ousadia e o mudei de lugar. Quem sabe melhoraria? Que surpresa a minha! Encontrei tanta sujeira por debaixo dele que me assustei. Aquela capa linda se tornou isso, como é possível?

Refleti, respirei e finalmente entendi. A minha preguiça tinha deixado a sujeira para trás, mas, a mesma nunca tinha saído dali. Só tinha se escondido para depois voltar com mais intensidade, dando mais trabalho e me pedindo sacrifícios.

Quanto trabalho para arrumar aquela bagunça! Primeiro, retirei a carga mais pesada. Acreditem, encontrei um porta- retrato, todo esmagado com a minha foto preferida de contraste. Entristeci-me com o resultado de anos de falta de cuidados e força de vontade.

Em seguida, visualizei um lápis velho, pequeno como se tivesse cansado de ser apontado. Pela aparência, parecia que as suas pontas tinham sido feita de todas as formas: lapiseira, estilete e faca. Milagre ter suportado.

Por último, verifiquei a existência da melhor caneta vendida na fazenda, seca, sem bocal, sem nada, resistindo só o interior todo pocado. Não tinha mais como recuperar, saia tinta por todos os lados. Enfim, limpei todo o chão do sofá.

Aquela limpeza me restaurou, tirou o comodismo em que me encontrava assim como aliviou a lixeira debaixo do sofá. É incrível como algo tão lindo pôde revelar tantas obscuridades, tantas sujeiras jogadas para debaixo do tapete da sala de estar.

Decidi repensar toda a organização e localização do sofá, mudava a cada decorrer da semana, não somente a capa do móvel, mas também, passei a tirar toda a poeira que guardava aquele imenso e grandioso amigo.

Reviver, repensar, revigorar. Limpar, tirar o pó, retirar do lugar, transformar, pintar, essa era a nova e bela rotina que impus ao pobre e meigo amigo que não aguentava mais tanta mudança. Devia me achar estranha. A palavra de ordem era se reinventar.

   


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