terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Poema

 


Lágrimas jorram de um pote

Salvar ou deixar?

As carnes apodrecidas clamam por um asilo

No meio de tanta balbúrdia e dor.


O homem sobrevive da dor alheia

O perdão se converteu em enganação?

Existe verdade na humanidade?

Será possível acreditar?


Lutas, guerras, tempestade

Fome, tristeza, ansiedade

O mundo morrendo

E o povo procurando se livrar da solidão.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

GRAMÁTICA TRADICIONAL: UMA ALTERNATIVA INTERDISCIPLINAR

 

1 INTRODUÇÃO

O ensino da Língua Portuguesa na escola privilegia a denominada gramática normativa, a qual pode ser definida como um conjunto de regras que pretendem uniformizar a escrita e a fala de acordo com a “norma padrão”. Portanto, considerando os efeitos que essa priorização pode causar nos estudantes, procuro neste breve ensaio apresentar uma maneira mais eficaz de transmitir os ensinamentos linguísticos por meio de uma contextualização interdisciplinar entre língua e literatura.

Para atingir tal propósito, esse ensaio está dividido em dois tópicos: o primeiro faz uma breve retomada da história da gramática no Ocidente, revelando o motivo do seu caráter normativo, enquanto o segundo trata da proposta interdisciplinar, a qual apresenta como objetivo possibilitar um melhor aprendizado dessa matéria que foi por muitas vezes tratada como mero enfeite decorativo de classes de palavras. Segue o primeiro tópico.

2 O INÍCIO DA GRAMÁTICA TRADICIONAL NO OCIDENTE: A CRIAÇÃO DE UM MODELO. 

            Para compreender a gramática atual é necessário visitar o passado, desta forma, será mais fácil entender o sistema vigente. Como muitas, essa ciência também nasceu na Grécia Antiga como uma maneira daquele povo se proteger da ameaça de dominação da língua nacional pelos falares dos povos bárbaros que habitavam aquela região, isso foi o que impulsionou a sua formação normativa. Segue o pensamento de Maria Helena de Moura Neves (2014):

 

A regularidade, o modelo, onde ser buscado? Obviamente, na linguagem dos escritores maiores, especialmente Homero. Faz-se, então, exegese, mas, ao lado disso, procura-se montar paradigmas, procura-se fornecer a explicitação dos padrões que mostrem em que consiste aquela pureza de língua, aquela regularidade que se quer conservar. Desfilam cânones flexionais a serviço da crítica textual e pela primeira vez – na obra dos alexandrinos – encontra-se uma atividade técnica de trabalho com a língua , distinguida de outra atividade não técnica, a de interpretação e crítica de obras literárias...  (NEVES, 2014, p. 32 apud NEVES, 2002 a, p. 31-32).

 

Analisando a citação acima, é possível afirmar que os modelos que nortearam a gramática normativa foram os escritos consagrados dos autores canônicos, como Homero, os quais eram considerados “puristas” da língua e isso perdura até os dias atuais na maioria dos livros didáticos distribuídos nos ambientes escolares. Por diversos motivos, o ensino dessa disciplina passou a ser reproduzido de forma mecânica e segundo alguns linguistas, como Gerardi (2006) desmotivante para o estudante que se vê obrigado a realizar interpretações fragmentadas de textos literários ou frases desconexas e totalmente retiradas de um contexto.

            Portanto, minha proposta, a partir do exposto pelos teóricos é a realização de uma contextualização dialógica entre a literatura e a gramática. Sendo assim, haverá uma análise, a qual terá por base o texto completo e abarcará outras questões, ultrapassando o campo da sintaxe frasal e das classes gramaticais desconexas de um sentido. Esta ideia será mais bem explanada no próximo tópico.

3 UMA PROPOSTA PARA O ENSINO DA GRAMÁTICA

Prosseguindo na explanação dessa proposta que é uma tentativa de uma mudança na educação linguística, a qual acontece, como afirma o professor Evanildo Bechara (2006) quando o conhecimento prévio do estudante é aceito, mas também se garante ao indivíduo a possibilidade de enriquecer o seu arcabouço cultural. Sendo assim, segue a ideia do linguista Marcos Bagno (2001) a respeito do ensino da gramática:

 

Levar em conta esses três critérios de análise – o sintático, o semântico e o pragmático – é indispensável na hora de examinarmos qualquer fato da língua. Por exemplo: muitas vezes um enunciado sintaticamente igual pode ter uma semântica e pragmática completamente diferentes. A articulação sintaxe-semântica –pragmática é uma ferramenta indispensável para compreender os fenômenos da língua de modo mais complexo e criterioso. (BAGNO, 2001, p.36-38)

 

Descentralizar o estudo gramatical da sintaxe das frases e de fragmentos literários para a compreensão textual é um caminho viável para uma melhor aprendizagem do aluno. Analisar o contexto de uma obra, conduzir o aluno ao entendimento dos mecanismos linguísticos que agem sobre determinado texto, o real significado daqueles parágrafos, os interesses ocultos por detrás das ironias, metáforas e afins. Estimular o aluno a tecer reflexões sobre as leituras, a realizar atividades produtivas, esse deveria ser o cerne do ensino.

Dessa forma, aconteceria o que Bagno denomina de articulação sintaxe-semântica – pragmática e, o mais importante, o mecanicismo da língua sofreria uma excelente amenização. Por não existir apenas uma maneira correta de ensinar a gramática, limito-me a reafirmar que, em suma, essa contextualização dialógica a que venho me referindo desde o início, uma interdisciplinaridade entre literatura e gramática, mesmo não sendo uma novidade no meio, se aplicada, faria muito bem aos indivíduos falantes da Língua Portuguesa.

 

REFERÊNCIAS

 

BASTOS, Neusa Maria Oliveira Barbosa; Brito, Regina Pires. Gramática normativa: ensino, consciência, liberdade. Researchgate, Rio de Janeiro. 16 p. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/329850610_Gramatica_normativa_ensino_consciencia_e_liberdade. Acesso em: 11 abr. 2021.

 

CASTRO, Maria Lúcia Souza. Práticas de letramentos: uma contribuição ao ensino de língua portuguesa. São Paulo: Scortecci, 2018. p. 39.

 

NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática, uso e norma. In: NEVES, Maria Helena de Moura. Que gramática estudar na escola? Norma e uso na Língua Portuguesa. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2014. p. 27-41.

 

SILVA, Arthur Rezende Da. Mecanismos contributivos para seu ensino. Researchgate, Rio de Janeiro. 11 p. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/266223327_Gramatica_normativa_mecanismos_contributivos_para_seu_ensino. Acesso em: 11 abr. 2021.

 

 

 

terça-feira, 27 de junho de 2023

Crônica da noite

 

Em uma noite de luar, observei duas rolinhas brigando em meu quintal por um punhado de milho que fora jogado em diversos pontos do chão. Mas, o que me impressionava era tanta luta para ter algo que tinha em quantidade suficiente para a alimentação de um quarteto. Tornei-me a pensar e cheguei à conclusão de que assim como as rolinhas, nós, seres humanos, supostamente racionais, impregnados, muitas vezes, de um idealismo utópico, escolhemos a competição e, por isso, adoecemos. Mas, por quê? Quais razões motivam a nossa eterna busca pela posição mais alta em todos os campos?

Após estes questionamentos, retorno-me à questão das aves, se é que algum momento sair, e trago os referenciais bíblicos e literários a minha lembrança. Érico Veríssimo em seu livro “Olhai os lírios do campo”, traz uma belíssima e valiosa lição por meio de uma carta lida pelo protagonista Eugênio. O escritor de maneira indireta nos aconselha a olharmos para as aves do céu que não cozinham nem fiam, mas nada lhes falta. Ou seja, o trabalho é importante, mas não nos esqueçamos de olhar para a vida com mais admiração. Relembrando: quando o desespero bater, “Olhai os lírios do campo.”.

sábado, 27 de novembro de 2021

 E tu, ó homem?

Compreendes o sofrimento alheio?

Ou pensas que só o teu importa?

Como ages? Como vives?


O que é a dor para ti?

É motivo de brincadeira?

É fofoca para tua roda?

Ou é um barulho incessante?


Não! Não ajas como um insensato!

Não se orgulhe de não ter feridas.

Antes, ofereça um ombro amigo 

E ajude a abrir um sorriso.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

RESENHA "A FALÊNCIA" DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

 

    Ambientado em um período posterior à proclamação da República, em um contexto de aparente valorização do café, o livro "A Falência" da escritora carioca Júlia Lopes de Almeida traz em seu enredo, temas frequentes em obras do século XIX, como: adultério, ganância e hipocrisia. 

    O protagonista Francisco Teodoro, comerciante, lembra em muitos aspectos o português João Romão, personagem da obra "O Cortiço", do escritor maranhense Aluísio Azevedo. Além de ambos serem imigrantes, são economistas, ao passo que o primeiro é "mão aberta" no que concerne a mulher e os filhos.

    O núcleo da trama ainda contém "amigos" do casal principal e as tias representando a família da esposa. Narrado em terceira pessoa, o romance também traduz a angústia e as dificuldades encontradas pelo protagonista para superar um acontecimento considerado fatal para a harmonia familiar. O peso da culpa, o medo da vergonha pública o fazem praticar um ato que culminará por decidir o futuro de muitos personagens. 

    Querem saber mais? Leiam o livro, e, se quiserem, comentem o que pensam a respeito do romance e da resenha.

Boa leitura! 


sábado, 9 de outubro de 2021

OLHAR PERDIDO

 Cada vez que me olhas

vês-me como eu era.

Não imaginas as batalhas,

as imagens barulhentas.

Debruço-me sobre o espelho,

lágrimas me inundam.

Procuro a beleza, a alegria...

Sonho com um dia poder pensar

no que fui sem chegar ao desespero.

Ilusão verdadeira de quem vê

e não quer mais enxergar

o passado à sua frente

e o futuro tão distante.

Toda vez que olho minha fronte,

vejo cacos de vidro ao luar.

Toma cuidado! Não pises,

não aguento mais me quebrar.

Só queria saber quando voltarei

a reconhecer o meu olhar. 

Poema publicado no suplemento da Revista SerEsta, em homenagem a poetisa Cecília Meireles. Link da revista completa: https://revistaseresta.blogspot.com/p/blog-page.html

Fontes de inspiração:

ANTOLOGIA POÉTICA, RETRATO, ENCOMENDA,

4o MOTIVO DA ROSA - Cecília Meireles

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A FLOR DESPEDAÇADA


Existia uma flor no quintal da casa de Cecília muito especial, era conhecida como a flor de Cilicia. Assim como a patroa, era cheia de manias, exalava um cheiro doce, era alva por fora, mas, quando desabrochava era vermelha como escarlate. Por diversas vezes se confundia com a rosa vermelha, de tão bonita.

Aquela planta não era comum. Todos os dias recebia cuidados especiais. Certo dia, a pequena Ceci foi regá-la, mas, desistiu quando verificou que o excesso de zelo a estava matando, cortando suas oportunidades de crescer saudável como as suas amigas herbívoras. Nesse instante, a garota sentiu a dor da florzinha, porque sabia o que era ser superprotegida, pois, assim percebia quando os pais não a deixavam sair por medo do perigo.

Olhava para a amiguinha e via que cada vez que a plantinha se abria trazia uma cor alegre, a qual deixava o seu dia mais feliz e aproveitava para tirar a raiz com o objetivo de brincar com as pétalas, mas, pressentia a tristeza estampada no pé e que a cada flor tirada, a alegria diminuía.

Era o contraste de sentimentos mais perfeito que já sentiu, ao despedaçar a flor notava a morte da mesma e assim percebia que na verdade o seu ser também perdia a sensibilidade após tantas palavras mal ditas. Ela procurava a maneira de se curar na natureza, mas, revivia sem perceber cada dor sofrida.

Como em um ritual estranho, a menina decidia colar cada pedaço da flor morta com a cola maluca, mas, não adiantava. Era inútil, pois, no mesmo minuto tudo desmontava mais desajustado, com manchas em toda parte e divisível. Desistiu, mas, algo a fazia resistir aquele ímpeto de queimar aqueles pedaços que sobraram.

Resolveu grampear, em uma tentativa absurda de se redimir, tentava de diversas maneiras salvar aquela flor e quem sabe a si mesma, questão de honra se tornara, não podia falhar, indispensável por algum motivo a reconstrução.

Atormentara-se com a possibilidade de errar novamente, de o grampo faltar, da respiração não voltar. Notara que era impossível grampear várias pétalas, e, mesmo que conseguisse, jamais voltaria ao normal. Seria emendada, como se tivesse sido costurada. Preferia isso à consciência pesada.

Comportamento inexplicável daquela menina acostumada a regar e a vê-las morrer para depois renascer como as fênix, mas, com aquela herbívora era diferente, a associara à sua própria vida, somente isto explicaria tanto empenho em “ressuscitá-la”. Parecia que o seu desejo era reviver por meio daquela florzinha.

Ao conseguir juntar as pétalas sentia como se estivesse juntando os cacos da alma despedaçada pelos anos em profundo silêncio. Quando pensava no riso amargo da amiga traduzido pela fragilidade da sua raiz, via-se constrangida com a semelhança que existia com o fingimento em que sua vida se resumia.

No instante em que perdia as pétalas e as não conseguia encontrar, revisitava dados perdidos da própria memória e amargava o próprio engano de pensar que poderia se recuperar. 

Gostava de grampeá-las, pensava que assim poderia emendar-se, costurar-se até encontrar um ponto de intersecção entre a sua alma e o coração, mas, em seguida, chorava, percebia que mesmo grampeada, o seu brilho não conseguia recuperar. Era tão difícil encarar a realidade. 

Lutou bravamente, arrumou os cacos que sobraram, digo, as pétalas e recomeçou os cuidados. Devagar, de forma tranquila, molhou, regou. Um passo de cada vez para não errar novamente. 

Enfim, recomeçar!

Publicado na edição n° 5 da Revista Fluxos. Link: https://a-liter-acao.blogspot.com/2021/09/revista-fluxos-volume-02-n-05-setembro.html?m=1



Poema

  Lágrimas jorram de um pote Salvar ou deixar? As carnes apodrecidas clamam por um asilo No meio de tanta balbúrdia e dor. O homem sobrevive...