1
INTRODUÇÃO
O
ensino da Língua Portuguesa na escola privilegia a denominada gramática
normativa, a qual pode ser definida como um conjunto de regras que pretendem
uniformizar a escrita e a fala de acordo com a “norma padrão”. Portanto,
considerando os efeitos que essa priorização pode causar nos estudantes,
procuro neste breve ensaio apresentar uma maneira mais eficaz de transmitir os
ensinamentos linguísticos por meio de uma contextualização interdisciplinar
entre língua e literatura.
Para
atingir tal propósito, esse ensaio está dividido em dois tópicos: o primeiro
faz uma breve retomada da história da gramática no Ocidente, revelando o motivo
do seu caráter normativo, enquanto o segundo trata da proposta
interdisciplinar, a qual apresenta como objetivo possibilitar um melhor
aprendizado dessa matéria que foi por muitas vezes tratada como mero enfeite
decorativo de classes de palavras. Segue o primeiro tópico.
2 O INÍCIO DA GRAMÁTICA TRADICIONAL
NO OCIDENTE: A CRIAÇÃO DE UM MODELO.
Para
compreender a gramática atual é necessário visitar o passado, desta forma, será
mais fácil entender o sistema vigente. Como muitas, essa ciência também nasceu
na Grécia Antiga como uma maneira daquele povo se proteger da ameaça de
dominação da língua nacional pelos falares dos povos bárbaros que habitavam
aquela região, isso foi o que impulsionou a sua formação normativa. Segue o
pensamento de Maria Helena de Moura Neves (2014):
A
regularidade, o modelo, onde ser buscado? Obviamente, na linguagem dos
escritores maiores, especialmente Homero. Faz-se, então, exegese, mas, ao lado
disso, procura-se montar paradigmas, procura-se fornecer a explicitação dos
padrões que mostrem em que consiste aquela pureza de língua, aquela
regularidade que se quer conservar. Desfilam cânones flexionais a serviço da
crítica textual e pela primeira vez – na obra dos alexandrinos – encontra-se
uma atividade técnica de trabalho com a língua , distinguida de outra atividade
não técnica, a de interpretação e crítica de obras literárias... (NEVES, 2014, p. 32 apud NEVES, 2002 a, p. 31-32).
Analisando
a citação acima, é possível afirmar que os modelos que nortearam a gramática
normativa foram os escritos consagrados dos autores canônicos, como Homero, os
quais eram considerados “puristas” da língua e isso perdura até os dias atuais
na maioria dos livros didáticos distribuídos nos ambientes escolares. Por
diversos motivos, o ensino dessa disciplina passou a ser reproduzido de forma
mecânica e segundo alguns linguistas, como Gerardi (2006) desmotivante para o
estudante que se vê obrigado a realizar interpretações fragmentadas de textos
literários ou frases desconexas e totalmente retiradas de um contexto.
Portanto,
minha proposta, a partir do exposto pelos teóricos é a realização de uma
contextualização dialógica entre a literatura e a gramática. Sendo assim, haverá
uma análise, a qual terá por base o texto completo e abarcará outras questões,
ultrapassando o campo da sintaxe frasal e das classes gramaticais desconexas de
um sentido. Esta ideia será mais bem explanada no próximo tópico.
3 UMA PROPOSTA PARA O ENSINO DA
GRAMÁTICA
Prosseguindo
na explanação dessa proposta que é uma tentativa de uma mudança na educação
linguística, a qual acontece, como afirma o professor Evanildo Bechara (2006)
quando o conhecimento prévio do estudante é aceito, mas também se garante ao
indivíduo a possibilidade de enriquecer o seu arcabouço cultural. Sendo assim,
segue a ideia do linguista Marcos Bagno (2001) a respeito do ensino da
gramática:
Levar
em conta esses três critérios de análise – o sintático, o semântico e o
pragmático – é indispensável na hora de examinarmos qualquer fato da língua.
Por exemplo: muitas vezes um enunciado sintaticamente igual pode ter uma
semântica e pragmática completamente diferentes. A articulação
sintaxe-semântica –pragmática é uma ferramenta indispensável para compreender
os fenômenos da língua de modo mais complexo e criterioso. (BAGNO, 2001,
p.36-38)
Descentralizar
o estudo gramatical da sintaxe das frases e de fragmentos literários para a
compreensão textual é um caminho viável para uma melhor aprendizagem do aluno.
Analisar o contexto de uma obra, conduzir o aluno ao entendimento dos
mecanismos linguísticos que agem sobre determinado texto, o real significado
daqueles parágrafos, os interesses ocultos por detrás das ironias, metáforas e
afins. Estimular o aluno a tecer reflexões sobre as leituras, a realizar
atividades produtivas, esse deveria ser o cerne do ensino.
Dessa
forma, aconteceria o que Bagno denomina de articulação sintaxe-semântica –
pragmática e, o mais importante, o mecanicismo da língua sofreria uma excelente
amenização. Por não existir apenas uma maneira correta de ensinar a gramática,
limito-me a reafirmar que, em suma, essa contextualização dialógica a que venho
me referindo desde o início, uma interdisciplinaridade entre literatura e
gramática, mesmo não sendo uma novidade no meio, se aplicada, faria muito bem aos
indivíduos falantes da Língua Portuguesa.
REFERÊNCIAS
BASTOS, Neusa Maria Oliveira Barbosa;
Brito, Regina Pires. Gramática
normativa: ensino, consciência, liberdade. Researchgate, Rio de Janeiro. 16
p. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/329850610_Gramatica_normativa_ensino_consciencia_e_liberdade. Acesso em: 11 abr. 2021.
CASTRO,
Maria Lúcia Souza. Práticas de letramentos: uma contribuição ao ensino de
língua portuguesa. São Paulo: Scortecci, 2018. p. 39.
NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática, uso e norma. In: NEVES,
Maria Helena de Moura. Que gramática estudar na escola? Norma e uso na Língua
Portuguesa. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2014. p. 27-41.
SILVA, Arthur Rezende Da. Mecanismos contributivos para seu ensino.
Researchgate, Rio de Janeiro. 11 p. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/266223327_Gramatica_normativa_mecanismos_contributivos_para_seu_ensino. Acesso em: 11 abr. 2021.