quinta-feira, 16 de setembro de 2021

O TIRO DO TATU



Assim como um dia de sol iluminava a todos os habitantes da pequena cidade de Tamanduá, a vinda da chuva alegrava a lavoura e na mesma proporção o vício ignorava a produção. Esta história será a ilustração perfeita do que a ociosidade pode fazer com o ser humano. 

Em um vilarejo do interior do Rio Grande do Sul existia um casal de agricultores que possuíam seis filhos. A idade das crianças variava entre quatro e dezenove anos. O mais velho de prenome Daniel, além de trabalhar no sítio do pai, era caçador de tatu, animal muito presente naquela região por ter uma carne deliciosa e pela pobreza dos moradores de Tamanduá.

Daniel era loiro, alto, olhos azul claros, muito trabalhador, porém, tinha um defeito capital: a bebida. Todos os sábados encaminhava-se para o bar daquela localidade. Sentava-se na cadeira e logo pedia o seu líquido preferido: a cachaça. Mais tarde, ao voltar para casa após passar todo o dia naquele estabelecimento, necessitava do auxílio de seus amigos que o acompanhavam.

Ao chegar a casa, Daniel encontrava seu pai no sofá da sala, irritado. Apesar de ter dezenove anos, o rapaz não tinha liberdade para chegar a hora que quisesse, pois, ainda não se sustentava. Mesmo levando várias broncas não modificava o seu comportamento.

Certo dia, choveu muito no vilarejo e os agricultores não puderam ir trabalhar, pois, a terra estava muito molhada e poderia causar um acidente. Sabendo disso, o mancebo decidiu ir ao bar somente para tomar dois copos de cerveja. Não pretendia demorar. Porém, encontrou um “amigo”, começou a conversar e perdeu a noção do tempo. Enfim, novamente estava bêbado.

O sol raiou. Voltou para casa, como não iria para a roça, resolveu ir caçar tatu. Pegou a arma que estava em cima do guarda-roupa do quarto do pai, colocou as balas e foi para o campo. Nesse dia, encontravam-se em casa o agricultor e sua filha mais nova, irmã do rapaz.

Posicionado no campo, Daniel resolveu carregar a arma, só esqueceu quem era o alvo. Observem: na tentativa de fazer todas as etapas de carregamento corretas, esqueceu de que não se coloca primeiro a espoleta e, pior, a espingarda estava voltada para si, parafraseando o ditado popular, a armadilha atingiu o seu criador. Como um punhal enfiado no peito, assim foi o barulho do tiro ouvido na sua casa, especialmente, pela sua irmã.   

Assim que ouviu o barulho no pasto da família, Carolina avisou o pai e saiu correndo para verificar o que havia acontecido. Ao olhar para o irmão estirado no campo, visualizou uma poça de sangue em volta do corpo. Desesperou-se. Pensou:

 — O que irei fazer? E agora, meu Deus. Meu irmão vai morrer.

Em meio aos pensamentos, choros, gritos roucos, vieram lembranças certeiras, e, em seguida, decidiu descer a ladeira em busca de ajuda. Lembrou-se de um casal da região, muito amigo de todas as famílias por serem donos de uma farmácia. Após explicar o que tinha acontecido com o irmão, pediu que o levassem para a Santa Casa de Misericórdia da cidade de Tamanduá.

Ao ouvir o relato da garota, dona Maria encarregou-se de subir por uma ladeira cheia de pedregulhos, molhada e perigosa por causa da chuva. Ao se aproximar do corpo, visualizou algo extraordinário: um buraco no peito do rapaz. Desceu aquela ladeira, como quem corre uma corrida de fórmula 1. Assim, o conduziram para o hospital.

Para o alívio de todos, chegaram. Insistiram para que o transferissem para a capital do Rio Grande do Sul, em busca de um melhor tratamento. Deixaram o médico louco de tantas insistências. Conseguiram. Daniel sobreviveu e nunca mais caçou tatus. 

Assim que se recuperou, na manhã da segunda-feira do dia dez de janeiro encaminhou-se para a roça para podar as vassouras de bruxa da roça de cacau. Seguiu todos os dias da semana dessa mesma maneira. No sábado foi na farmácia dos amigos e voltou para o lar.

Certo dia, passou um mercador no caminho 37 de Tamanduá. Daniel aproveitou para oferecer a arma dos tatus. Vendeu por um bom preço e comprou alimentos para dentro de casa. Aprender, sorrir, agradecer e viver.

Aprender com os erros é necessário, mas, olhar o local onde a pólvora da arma vai sair é muito eficaz no caso da pessoa não querer morrer na primeira sacada. Ah, e, por favor, só atire se souber. A sorte não é igual para todos. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poema

  Lágrimas jorram de um pote Salvar ou deixar? As carnes apodrecidas clamam por um asilo No meio de tanta balbúrdia e dor. O homem sobrevive...