quarta-feira, 28 de junho de 2023

GRAMÁTICA TRADICIONAL: UMA ALTERNATIVA INTERDISCIPLINAR

 

1 INTRODUÇÃO

O ensino da Língua Portuguesa na escola privilegia a denominada gramática normativa, a qual pode ser definida como um conjunto de regras que pretendem uniformizar a escrita e a fala de acordo com a “norma padrão”. Portanto, considerando os efeitos que essa priorização pode causar nos estudantes, procuro neste breve ensaio apresentar uma maneira mais eficaz de transmitir os ensinamentos linguísticos por meio de uma contextualização interdisciplinar entre língua e literatura.

Para atingir tal propósito, esse ensaio está dividido em dois tópicos: o primeiro faz uma breve retomada da história da gramática no Ocidente, revelando o motivo do seu caráter normativo, enquanto o segundo trata da proposta interdisciplinar, a qual apresenta como objetivo possibilitar um melhor aprendizado dessa matéria que foi por muitas vezes tratada como mero enfeite decorativo de classes de palavras. Segue o primeiro tópico.

2 O INÍCIO DA GRAMÁTICA TRADICIONAL NO OCIDENTE: A CRIAÇÃO DE UM MODELO. 

            Para compreender a gramática atual é necessário visitar o passado, desta forma, será mais fácil entender o sistema vigente. Como muitas, essa ciência também nasceu na Grécia Antiga como uma maneira daquele povo se proteger da ameaça de dominação da língua nacional pelos falares dos povos bárbaros que habitavam aquela região, isso foi o que impulsionou a sua formação normativa. Segue o pensamento de Maria Helena de Moura Neves (2014):

 

A regularidade, o modelo, onde ser buscado? Obviamente, na linguagem dos escritores maiores, especialmente Homero. Faz-se, então, exegese, mas, ao lado disso, procura-se montar paradigmas, procura-se fornecer a explicitação dos padrões que mostrem em que consiste aquela pureza de língua, aquela regularidade que se quer conservar. Desfilam cânones flexionais a serviço da crítica textual e pela primeira vez – na obra dos alexandrinos – encontra-se uma atividade técnica de trabalho com a língua , distinguida de outra atividade não técnica, a de interpretação e crítica de obras literárias...  (NEVES, 2014, p. 32 apud NEVES, 2002 a, p. 31-32).

 

Analisando a citação acima, é possível afirmar que os modelos que nortearam a gramática normativa foram os escritos consagrados dos autores canônicos, como Homero, os quais eram considerados “puristas” da língua e isso perdura até os dias atuais na maioria dos livros didáticos distribuídos nos ambientes escolares. Por diversos motivos, o ensino dessa disciplina passou a ser reproduzido de forma mecânica e segundo alguns linguistas, como Gerardi (2006) desmotivante para o estudante que se vê obrigado a realizar interpretações fragmentadas de textos literários ou frases desconexas e totalmente retiradas de um contexto.

            Portanto, minha proposta, a partir do exposto pelos teóricos é a realização de uma contextualização dialógica entre a literatura e a gramática. Sendo assim, haverá uma análise, a qual terá por base o texto completo e abarcará outras questões, ultrapassando o campo da sintaxe frasal e das classes gramaticais desconexas de um sentido. Esta ideia será mais bem explanada no próximo tópico.

3 UMA PROPOSTA PARA O ENSINO DA GRAMÁTICA

Prosseguindo na explanação dessa proposta que é uma tentativa de uma mudança na educação linguística, a qual acontece, como afirma o professor Evanildo Bechara (2006) quando o conhecimento prévio do estudante é aceito, mas também se garante ao indivíduo a possibilidade de enriquecer o seu arcabouço cultural. Sendo assim, segue a ideia do linguista Marcos Bagno (2001) a respeito do ensino da gramática:

 

Levar em conta esses três critérios de análise – o sintático, o semântico e o pragmático – é indispensável na hora de examinarmos qualquer fato da língua. Por exemplo: muitas vezes um enunciado sintaticamente igual pode ter uma semântica e pragmática completamente diferentes. A articulação sintaxe-semântica –pragmática é uma ferramenta indispensável para compreender os fenômenos da língua de modo mais complexo e criterioso. (BAGNO, 2001, p.36-38)

 

Descentralizar o estudo gramatical da sintaxe das frases e de fragmentos literários para a compreensão textual é um caminho viável para uma melhor aprendizagem do aluno. Analisar o contexto de uma obra, conduzir o aluno ao entendimento dos mecanismos linguísticos que agem sobre determinado texto, o real significado daqueles parágrafos, os interesses ocultos por detrás das ironias, metáforas e afins. Estimular o aluno a tecer reflexões sobre as leituras, a realizar atividades produtivas, esse deveria ser o cerne do ensino.

Dessa forma, aconteceria o que Bagno denomina de articulação sintaxe-semântica – pragmática e, o mais importante, o mecanicismo da língua sofreria uma excelente amenização. Por não existir apenas uma maneira correta de ensinar a gramática, limito-me a reafirmar que, em suma, essa contextualização dialógica a que venho me referindo desde o início, uma interdisciplinaridade entre literatura e gramática, mesmo não sendo uma novidade no meio, se aplicada, faria muito bem aos indivíduos falantes da Língua Portuguesa.

 

REFERÊNCIAS

 

BASTOS, Neusa Maria Oliveira Barbosa; Brito, Regina Pires. Gramática normativa: ensino, consciência, liberdade. Researchgate, Rio de Janeiro. 16 p. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/329850610_Gramatica_normativa_ensino_consciencia_e_liberdade. Acesso em: 11 abr. 2021.

 

CASTRO, Maria Lúcia Souza. Práticas de letramentos: uma contribuição ao ensino de língua portuguesa. São Paulo: Scortecci, 2018. p. 39.

 

NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática, uso e norma. In: NEVES, Maria Helena de Moura. Que gramática estudar na escola? Norma e uso na Língua Portuguesa. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2014. p. 27-41.

 

SILVA, Arthur Rezende Da. Mecanismos contributivos para seu ensino. Researchgate, Rio de Janeiro. 11 p. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/266223327_Gramatica_normativa_mecanismos_contributivos_para_seu_ensino. Acesso em: 11 abr. 2021.

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poema

  Lágrimas jorram de um pote Salvar ou deixar? As carnes apodrecidas clamam por um asilo No meio de tanta balbúrdia e dor. O homem sobrevive...